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Sunday, February 12, 2017

Tragédia de Santa Maria – 4 Anos sem Justiça

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“No momento que cheguei ao ginásio para o velório coletivo, eu gritava muito e os jornalistas rapidamente se aproximaram:vários colocaram o microfone em minha boca. Sentia como corvos na carniça. Eu gritava, ‘só quero meu filho!’. O tempo para mim parou ali, nem sei quanto tempo fiquei no CDM [Centro Desportivo Municipal]” (Ariane Floriano, mãe de vítima fatal da boate Kiss, com exclusividade a esta série de reportagens).





 ”Quando estamos acampados no Ministério Público, ninguém da Imprensa vai… O Jornal Nacional [TV Globo] só fez sensacionalismo com os pais em frente aos caixões dos filhos! Quando estivemos agarrados ao caixão dos nossos filhos berrando, todos os jornalistas vieram como urubus!” (Carina Correa, mãe de vítima fatal da boate Kiss, com exclusividade a esta série de reportagens).



O incêndio da boate Kiss na cidade universitária de Santa Maria, Rio Grande do Sul, cumpriu quatro anos no dia 27 de janeiro de 2017 – sem justiça, o que não é nenhuma novidade em se tratando de Brasil apesar das aparências desenhadas pelo marketing midiático e judicial.




O segundo incêndio mais mortal da história do Brasil, mais grave dos últimos 54 anos, esteve longe de mero acidente como tentaram fazer crer. os aiatolás do mercadejo até de vidas humanas, e sua subserviente mídia comercial e acentuadamente sensacionalista, sustentada por esses mesmos mercadejantes.


Até agora, ninguém foi condenado no país onde uma desgraça passa por cima da outra sem solução e ainda, se não bastasse, acaba caindo no esquecimento da nação geral, condições estas peculiarmente incentivadas pela mídia e pelos poderes políticos. Macabra parceria de sucesso.


E para nenhum destes cenários, da impunidade à indiferença societária que leva ao esquecimento, há a menor perspectiva de mudança. Longe de possuir aptidões profético-espirituais, este autor realizou exaustiva entrevistas com todos os envolvidos na tragédia a serem registradas em uma serie de amplas reportagens (primeira publicação, nos próximos dias: A Noite Infame e os Dias Subsequentes).


Longe de possuir aptidões profético-espirituais, o autor desta série que inclui exaustiva entrevistas com todos os envolvidos na tragédia, há um ano da tragédia, em janeiro de 2014 alertou especialmente pais de vítimas para a realidade de hoje, esquecimento midiático mais absoluto, conforme será abordado no artigo Sinais e Imperativos da Tragédia – As Lições Nunca Aprendidas no Brasil.

O motivo do alerta deu-se quando a Rede Globo havia anunciado, nos bastidores da tragédia, o envio de seu “laranja” Sérgio Groisman a Santa Maria, segundo este autor a fim de abafar intensas criticas da cidade e alegrar corações de vítimas e familiares de vítimas através do que deveria ser um mini-festival de auditório mal-disfarçado e devidamente dramatizado.

O sensacionalismo seguido de esquecimento do incêndio por parte da emissora ao longo de um ano, práticas historicamente bem conhecidas de todo o País, foram esquecidos naquele momento “nobre” de visita global a Santa maria, a indignação de então acabou anestesiada através do brinde psicológico que incluiu minutinhos de fama a determinados personagens da sociedade santamariense, hoje novamente indignada com o esquecimento midiático.


Segundo o alerta, seria muito mais produtivo e chamaria muito mais a atenção do País para a luta local por justiça organizar-se protesto contra a Rede Globo, com recusa a participar de qualquer evento organizado pela emissora (tão criticada até então pelos próprios envolvidos na tragédia), neste caso através de seu animador de auditório que, conforme antecipado por este autor, não trataria dos temas cruciais que levaram ao incêndio, nem à impunidade e abandono do Poder Público em relação aos familiares de vítimas e sobreviventes. Este repórter foi categórico:


Ninguém deu ouvidos e estenderam, deslumbrados, o tapete vermelho à Toda-Poderosa Rede Globo ao mesmo tempo que davam menos importância aos solitários comunicadores que, desde o início, compravam suas lutas: pois a cruel realidade estende-se, ao longo destes anos, ao que está ai hoje: a realidade do impiedoso Império midiático enriquecido (também sobre a desgraça alheia); realidade das vítimas sem memória, sem verdade e sem justiça incluindo as centenas de sobreviventes desamparadas, com sequelas para o resto da vida.




Não apenas a luta por memória, verdade e justiça poderia ser bem mais efetiva através de negação a participar de programa da Rede Globo seguida de protestos, como seria enobrecida sobretudo (e isso também foi apontado pelo autor a pais de vítimas) a memória de seus filhos. E hoje a amargura pelo esquecimento midiático não carregaria consigo o inevitável brinde, tão anunciado e desprezado: ter-se curvado (eufemismo para acovardado) diante da porta-voz da impunidade na defesa dos interesses dos criminosos detentores do poder, político e econômico.

Tal fato, tal estado de espírito bastante peculiar no Brasil apático, da falta de memória, do jeitinho e da vantagem em tudo responde, perfeitamente, a indagação dos próprios envolvidos na tragédia de Santa Maria: por que em relação ao incêndio de boate na capital argentina de Buenos Aires em 2004, muito semelhante ao caso da Kiss, os culpados acabaram punidos e o então prefeito, com direitos políticos cassados.





A Tragédia

Por volta das 3h18 do dia 27 de janeiro de 2013, um dos integrantes da banda Gurizada Fandangueira lançou fogo de artifício inadequado na boate Kiss (supostos músicos, medíocres produtores de lixo cultural, irresponsáveis e gananciosos, haviam comprado naquele mesmo dia o artefato mais barato), dando início ao incêndio no teto que ficava a menos de três metros do palco de onde foi lançado o fogo de artifício: de três a cinco minutos morreram 242 jovens intoxicados por gás cianeto no interior de uma casa noturna que não possuía nenhuma estrutura. Mais de 600 ficaram feridos (quase o número permitido por lei para lotação do estabelecimento), muitos com sequelas que os acompanharão pelo resto da vida.




Havia na Kiss apenas uma porta disponível, tanto de entrada quanto de saída ao público. para piorar as condições de segurança, os extintores de incêndio encontravam-se fora de lugar, vazios e já utilizados (em brincadeiras nas atividades da casa que incluía os proprietários da boate) em um estabelecimento comercial que jamais reuniu, ao longo dos mais de quatro anos em que funcionou, todos os alvarás requeridos para funcionamento.

Além disso tudo, naquela fatídica noite de 27 de janeiro de 2013 cerca de 1.200 pessoas se espremiam em um local que não podia comportar mais que 691 pessoas. A estrutura da Kiss será analisada em detalhes através de duas amplas reportagens nos próximos dias, que ouvem a todos os lados em questão assim como em todas as publicações da série.




Outras nove pessoas iriam a óbito nas semanas subsequentes também por intoxicação por cianeto, segundo versão oficial confirmada por documentos enviados pela Polícia e testemunha de toxicologista que atendeu vítimas em Porto Alegre, totalizando 242 mortes que revelaram, na acolhedora cidade santamariense, um velho filme à brasileira: a fiscalização corrupta no país do jeitinho, que envolve administradores públicos e empresários inescrupulosos, fruto também de um sistema capitalista falido.

Todas as 242 mortes, segundo laudos enviados com exclusividade pela Polícia Civil da cidade, ocorreram por intoxicação com gás cianeto (o mesmo usado pelos nazistas na II Guerra Mundial, para exterminar inimigos em campos de concentração), devido à queima da espuma de poliuretanto no teto da boate, o qual nao poderia estar ali por ser altamente inflamável, e mais: não há no Brasil antídoto para intoxicação com tal gás, o que desautoriza, ou deveria desautorizar, o comércio da espuma usada na grande maioria das casas noturnas do Brasil ainda nos dias de hoje.


Os documentos enviados pela Polícia confirmando a morte por cianeto, somados às declarações de uma especialista que atendeu vítimas da boate, jogam por terra alegações do advogado de defesa da Kiss trazidas a esta reportagem.


Tal fato tem sido incansavelmente questionado pelo dr. Luiz Fernando Smaniotto, advogado da Associação dos Familiares e Sobreviventes da Tragédia de Santa Maria (AVTSM). Para responder a isso, foram procuradas autarquias federais, a Anvisa (vigilância sanitária) e o Inmetro (qualidade e liberação de produtos para comércio): ambos se eximiram das responsabilidades.




A Cantegril, localizada na Grande Porto Alegre, fabricante da espuma contida na Kiss, foi igualmente procurada: falaram com esta reportagem o químico responsável, o qual entrou em gritantes contradições, e o jurista da empresa. Após a conversa com ambos, a Polícia Civil de Santa Maria enviou à reportagem documentos que comprovam a (ir)responsabilidade da empresa em questão que, segundo familiares de vítimas, seu advogado, dr. Smaniotto e a própria Polícia Civil, leva em consideração apenas fatores comerciais – a desgraçada lógica do capitalismo, que é ilógica e transforma vidas humanas em meros números, acessórios da maximização do lucro desenfreada de bandidos travestidos de seres responsáveis, éticos e geradores da riqueza nacional, ou até mesmo intelectuais com seus imorais jargões mercadológicos e/ou jurídicos.

Nas primeiras horas pós-tragédia, a mídia nacional tratou do incêndio de maneira absolutamente sensacionalista – fato apontado com unanimidade por familiares de vítimas procurados pela presente reportagem, e por todos os outros envolvidos na tragédia -, para logo se esquecer do caso, e nos momentos mais importantes que foram a investigação policial, o descaso da Justiça brasileira e as manifestações públicas de familiares de vítimas, em Santa Maria e na capital gaúcha de Porto Alegre.


Por Memória, Verdade e Justiça


Para esta série por memória, verdade e justiça, foram entrevistados por mais de 150 horas todos os envolvidos na tragédia (entre revelações, denúncias, mentiras logo comprovadas e deslizes além de documentos enviados com exclusividade, por pais de vítimas, pela Polícia de Santa Maria, pela Prefeitura e pelo Hospital Universitário de Santa Maria, que recebeu vítimas):

Familiares das vítimas e seu advogado; sobreviventes da tragédia, incluindo seguranças da boate Kiss; o então prefeito de Santa Maria; a então secretária de Finanças, a superintendente de Assistência Social da cidade à época; a Polícia Civil santamariense, que investiga a tragédia; Hospital Universitário; a Brigada Militar; Ministério da Saúde; Anvisa; Inmetro; químico e jurista da fabricante da espuma contida na boate (liberadora de cianeto ao ser queimada); advogado de um dos proprietários da Kiss; toxicologista que atuou no socorro a vítimas; e juristas de fora do caso, a fim de prestar orientação jurídica a esta série de publicações inéditas.


A série também traz duras perguntas de pai de vítima encaminhadas, diretamente através desta reportagem, ao advogado, dr. Jader Marques, que atua na defesa de um dos sócios da boate da morte (como é amplamente chamada em Santa Maria hoje, especialmente por familiares de vítimas), Elissandro Spohr. O dr. Marques respondeu às contundentes e indignadas questões sem rodeios, embora tenha trazido algumas afirmações consideradas infelizes por esta reportagem, a qual o rebateu e acredita ter contribuído para a construção da cidadania, do senso de justiça e suprido a ausência de espaço para que os sofridos familiares de vítimas ecoem sua voz. Diante disso, o dr. Marques fez silêncio definitivo.


Enquanto a reportagem esteve em meio ao fogo cruzado entre todos os lados envolvidos na tragédia, uma instituição recusou-se, de modo vexatório, a conceder entrevista, exatamente aquela acusada de crime doloso pela Polícia, uma das que tanta revolta gera nos familiares de vítimas e, mais uma desgraçada ironia à brasileira, uma das poucas que ainda têm credibilidade no país: o Corpo de Bombeiros de Santa Maria.


No primeiro contato, o comandante Marcelo Maya assegurou, relutante, que a entrevista seria concedida – mas por correio eletrônico, ideia inicialmente rechaçada por esta reportagem pois tal prática fere os princípios jornalísticos. A alegação do comandante é que a Imprensa está denegrindo a imagem de sua corporação: perguntado como a mídia faz isso, após breve silêncio o comandante de uma corporação criminosa da cidade santamariense resumiu-se a uma longa, fechada e forçada risada, sem responder, e dando prazo de uma semana para responder às perguntas que seriam enviadas por esta reportagem. Já no mesmo dia, elas foram enviadas, e as respostas nunca viriam.


Procurado por telefone, Maya não atendeu. Em seguida, mais um (duro) correio eletrônico enviado ao comandante dos Bombeiros e, simultaneamente e em aberto, a diversas instituições, políticos, órgãos de Imprensa, Prefeitura de Santa Maria e envolvidos com a tragédia (pais de vítimas, profissionais de saúde e advogados) em protesto por seu silêncio, cobrando resposta sobretudo aos familiares das vítimas. Tal mensagem denunciava também todos os crimes dos Bombeiros evidenciados pelo inequérito policial, e por sobreviventes da boate Kiss. Mas o comandante manteve a regra, para com esta reportagem e nas mais diversas situações desde 27 de janeiro de 2013: silêncio absoluto, definitivamente.


O Corpo de Bombeiros (órgão estadual) recebeu, até o dia da tragédia, milhões de reais da Prefeitura em caráter assistencial, montante sem precedentes, fato confirmado por documentos enviados pelo prefeito de Santa Maria, com exclusividade a esta reportagem. Com o incêndio, a insuficiência do efetivo militar e de materiais de resgate trouxe uma questão inevitável: para onde tinha ido todo aquela soma financeira? Seria comprovado mais um caso vergonhoso de corrupção no país do imponderável. E se não bastasse, o “trabalho” dos bombeiros em frente à Kiss foi mais um gesto criminosamente covarde, conforme abordado em A Noite Infame e os Dias Subsequentes.


A Prefeitura de Santa Maria, durante as mais de 15 horas de tão atenciosa entrevista exclusiva com envio de diversos documentos a serem publicados ao longo desta série, insistiu que não houve falha e nem muito menos negligência por parte de seus fiscais nos anos de inspeção na boate da morte, contrariando os dois inquéritos policiais – o primeiro, de março de 2013, indicava no mínimo falhas muito claras, e o segundo a fim de concluir fatos faltantes daquele, em julho de 2014, apontou casos de corrupção envolvendo agentes municipais. As versões de todos os lados, com os devidos documentos, serão devidamente expostos nesta série, a fim de esmiuçar uma das maiores tragédias dos últimos tempos no Brasil.


Vale destacar que o então prefeito Cezar Schirmer, PMDB, quem tem sido vítima de distorção dos fatos e de muita injustiça em diversos aspectos, tem se recusado a conceder entrevistas sobre a tragédia, abrindo exceção a esta reportagem desde o início que foi procurado, e de modo altamente gentil e democrático. Porém, diversas de suas alegações têm sido consideradas distorções pelo advogado de familiares das vítimas, e gerado profunda revolta na cidade. Mas também tem servido para que o prefeito eleito e reeleito, em grande parte tido como altamente eficiente até o dia do incêndio inclusive por familiares de vítimas, seja vítima do mais baixo jogo político dentro e fora de Santa Maria. Fato este que não isenta sua administração das culpas trazidas pelas evidências, confirmadas pelo inquérito policial.


O ex-prefeito Schirmer acaba isolado nas acusações por parte de certos setores da sociedade, servindo mais como bode expiatório que como administrador a ser (justamente) investigado )o que ocorreu por parte da Polícia Civil, mas não pelo Ministério Público) o que se configura mais um empecilho para a promoção da justiça no Brasil. Uma das exceções a isto, segundo apurou profundamente esta reportagem e se tornará bastante claro na série que se inicia aqui, é a Polícia Civil da cidade, com transparente e incansável trabalho.


O então prefeito Schirmer, que também é advogado e hoje atua como secretário de Segurança do Rio Grande do Sul, sem acusar de maneira detalhada a ninguém, lamenta que outros envolvidos não sejam tão cobrados quanto ele – dando como exemplo Bombeiros, governo federal e donos da boate. Pois nesta séria, a reportagem desfaz, logo na primeira publicação e de maneira documental, a mentira que, segundo o prefeito santamariense, foi “politicagem” cuja informação “caiu do céu na cidade” e gerou muita controvérsia, acirrando os ânimos e afastando a sociedade da verdade dos fatos.


Já o advogado, dr. Jader Marques, acusa duramente e sem rodeios nas várias horas de entrevista também exclusiva a esta reportagem, o Ministério Público, o governo federal e a Prefeitura de Santa Maria à época pela liberação do funcionamento da casa noturna de seu cliente o qual, segundo o dr. Marques, não é especialista em assunto técnicos envolvendo engenharia, arquitetura e prevenção de incêndio. Portanto, Spohr não pode ser responsabilizado, é o mote da defesa de um dos donos da Kiss.


O advogado de defesa de Spohr, intensamente criticado pelos familiares de vítimas, também acusou a Polícia santamariense de politiqueira, a qual o respondeu de maneira sóbria e bastante dura, através de fatos pontuais. Assim, mentiras e deslizes envolvendo alguns argumentos do dr. Marques, que por tanto tempo e de maneira tão gentil atendeu a esta reportagem, como praticamente todos os lados em questão, são trazidos também às claras diretamente pelos envolvidos, alguns deles de maneira igualmente documental.


A velha e envelhecida mídia brasileira não poderia ficar de fora da profunda revolta por parte de familiares de vítimas conforme abordado no inicio, e das abordagens desta série Por Memória Verdade e Justiça, enquanto porta-voz e ferramenta de blindagem dos podres poderes políticos e empresarias: esta série analisa como a mesquinha mídia politiqueira vendeu mais um produto desgraça à sociedade brasileira, em concordância com pais de vítimas procurados, que relatam a ganância e todos os gestos inescrupulosos da grande mídia tupiniquim já no velório de seus filhos, sem respeitar minimamente a dor de quem ficou, no momento mais duro de suas vidas. “No momento que cheguei ao ginásio para o velório coletivo, eu gritava muito e os jornalistas rapidamente se aproximaram:vários colocaram o microfone em minha boca. Sentia como corvos na carniça. Eu gritava, ‘só quero meu filho!’. O tempo para mim parou ali, nem sei quanto tempo fiquei no CDM [Centro Desportivo Municipal]“, afirma com exclusividade a esta série uma mãe de vítima, logo na primeira reportagem. Outra mãe procurada por esta reportagem aponta no mesmo sentido, profundamente revoltada: “Quando estamos acampados no Ministério Público, ninguém da Imprensa vai… O Jornal Nacional só fez sensacionalismo com os pais em frente aos caixões dos filhos! Quando estivemos agarrados ao caixão dos nossos filhos berrando, todos os jornalistas vieram como urubus!”.


Pois a mídia autoproclamada “alternativa”, em alguns casos nada mais que a outra face de uma mesma moeda midiático-politiqueira, sensacionalista, sem memória e sumária acusadora de seus inimigos políticos e econômicos, também se esqueceu rapidamente da tragédia para nunca mais tocar no assunto, nem jamais exercer o mínimo ofício jornalístico que implica investigação. Não havia gente do chamado povão na “boate da morte”, mas havia mais mil universitários que possuem a mesma origem da imensa maioria dos profissionais da Imprensa “alternativa”. E como a tragédia de Santa Maria envolveu a sistêmica corrupção envolvendo fiscalização Brasil afora, especialmente em casas noturnas que são frequentadas por todas as classes sociais, é um assunto que diz respeito a cada um de nós, seja de que segmento pertençamos. Todos deveríamos nos interessas pelo massacre de Santa Maria, e a mídia não poderia, jamais, ter se esquecido dela.


Conforme insistem familiares das vítimas, outros incêndios criminosos como o da boate Kiss devem se repetir no Brasil das lições nunca aprendidas (em 29 de novembro de 2013, aliás, algo semelhante ocorreu no Memorial da América Latina em São Paulo, com as mesmas implicações do genocídio da Kiss no que diz respeito à imprudência na liberação de alvarás, e ausência de antídoto para intoxicação por cianeto).


O incêndio da boate Kiss foi uma das mais crueis evidências do falido sistema fiscalizador Brasil afora, e da ganância empresarial brasileira, ambos emaranhados em corrupção. Um sistema mafioso que rege as relações políticas, econômicas e sociais do Estado de direito brasileiro altamente frágil.


Aqui não há esquecimento da tragédia em Santa Maria porque justiça só é possível através da verdade, e verdade só pode ser apurada se houver memória. Como diria o jurista argentino Nicolás Avellaneda (1837-85), povo que esquece seu passado, está condenado a vivê-lo novamente.



Edu Montesanti






Monday, January 23, 2017

Eis como a Presidência de Trump se irá desenrolar

CIA-trump

A era de Trump começa agora – com uma série de episódios plenos de suspense, ligados à geopolítica e à geoeconomia, iminentes e imprevisíveis.


Eu defendi que a estratégia de oposição do guru de Trump para a política externa, Henry Kissinger, ao poderoso trio de integração da Eurásia – Rússia, China e Irão – é uma mistura de dividir para reinar; seduzir a Rússia, afastando-a da sua parceria estratégica com a China, e acossar o elo mais fraco, o Irão.


Na verdade, é isso que está a acontecer – como se vê pelas ofensivas dos membros escolhidos para o gabinete de Trump durante suas audiências no Senado dos EUA. As fações dos EUA próximas do Think Tankland, defensores da política de Nixon para a China projetada por Kissinger, estão animadas com as possibilidades de contenção em relação a pelo menos um desses poderes “potencialmente virado contra a América.” Kissinger e o Dr. Zbig “Grande Xadrez” Brzezinski são as duas principais autonomeadas sumidades ocidentais – mestres fantoches – que se disputam na área da geopolítica. Em oposição a Kissinger, o mentor da política externa de Obama, Brzezinski, fiel à sua russofobia, propôs uma lógica de dividir para reinar, apostada na sedução da China.


No entanto, um influente homem de negócios de Nova Iorque, muito próximo dos reais e discretos Mestres do Universo, que previu corretamente a vitória de Trump semanas antes do fato, depois de examinar o meu argumento ofereceu-me não só uma avaliação mordaz dessas queridas sumidades; ele dispôs-se a detalhar-me como a nova normalidade será estabelecida, tendo sido negociada pelos Mestres diretamente com Trump. Vamos designá-lo por “X”.


A China em observação ininterrupta


“X” começa por dizer algo que aqueles que regularmente mantém ligações ao Deep State e que reverenciam os seus ídolos, nunca ousam dizer, pelo menos em público: “É importante não atribuir muita importância a Kissinger ou Brzezinski, pois eles são apenas fachadas para aqueles que tomam as decisões e o seu trabalho é recobrir e justificar as decisões com um refinamento de intelectualidade. O seu contributo não vale nada. Eu uso os nomes deles de vez em quando pois não posso usar os nomes daqueles que realmente tomam as decisões “. Está então aberto o caminho para” X ” detalhar a nova normalidade:


“Trump foi eleito com o apoio dos Mestres para se inclinar para a Rússia. Os Mestres têm os seus instrumentos nos media e no Congresso mantendo uma campanha de difamação contra a Rússia, e têm o seu boneco Brzezinski também a pregar contra a Rússia, afirmando que ‘a influência global da América depende da cooperação com a China’. O objetivo é pressionar a Rússia para ela cooperar, colocando essas fichas negociais na mesa de Trump. Em termos de uma abordagem tradicional de polícia-bom, polícia-mau, Donald é retratado como o polícia bom querendo boas relações com a Rússia, sendo o Congresso, os media e Brzezinski os policias maus. Trata-se de ajudar Trump nas negociações com a Rússia supondo que Putin, à medida que for vendo o seu amigo numa posição mais ´precária´, estará disposto a fazer maiores concessões.”


E isso leva a explicar como é que Taiwan – e o Japão – entram em cena:


“Donald mostrou a sua inclinação para a Rússia conversando com os taiwaneses, de forma a demonstrar que a mudança é a sério. Mas foi decidido fazer entrar o Japão na peça como sendo um predador contra a indústria dos EUA, através de um ataque à Toyota, bem merecido. Isso moderou a nossa posição já que os Mestres recearam que a perceção de que estávamos a apoiar o Japão contra a China seria considerada uma provocação excessiva “.


Por isso, espera-se que a China – que “não tem demasiada importância”, como afirmou Kissinger – seja mantida sob controlo ininterrupto:


“Os Mestres decidiram reindustrializar os Estados Unidos e querem trazer de volta os postos de trabalho da China. Isso é aconselhável do ponto de vista chinês; por que razões devem eles vender seu trabalho aos EUA por um dólar que não tem valor intrínseco, não recebendo realmente nada pelo seu trabalho. Cada trabalhador chinês deve ter um carro na sua garagem e a China deve tornar-se num produtor de carros maior do que a UE, EUA e Japão combinados, mantendo a sua riqueza no seu próprio país “.


E porquê a China e não a Rússia?


“A Rússia, no que toca a este tema, é um país com muitos recursos naturais, com um gigantesco complexo industrial militar (sendo este o único motivo pelo qual é secretamente respeitada), mas está fora destas difíceis negociações, pois quase não exporta nada além de recursos naturais e equipamentos militares. Os Mestres querem os empregos de volta do México e da Ásia, incluindo do Japão, de Taiwan, etc., e isso é já visível no ataque de Trump também ao Japão. A principal razão subjacente a esta estratégia é que os EUA perderam o controlo dos mares e não podem defender os seus destacamentos militares durante uma grande guerra. Esta é a realidade que interessa ter em conta no momento presente e esta é a verdadeira história que se desenrola nos bastidores. ”


Em poucas palavras, “X” resume o conteúdo da reversão de um ciclo econômico:


“Os Mestres ganharam dinheiro com a transferência da indústria para a Ásia (A Bain Capital especializou-se nisso) e Wall Street ganhou dinheiro com taxas de juro mais baixas sobre os dólares reciclados dos défices comerciais. Mas agora, a questão é estratégica; eles ganharão dinheiro de novo com o regresso das indústrias que reduzirão os seus investimentos na Ásia devolvendo-os aos Estados Unidos, à medida que reconstruímos a produção aqui “.


” X ” continua a ser um grande admirador da estratégia de negócios de Henry Ford, e esse é o ponto que ele vai usar para trazer à baila um tema crucial: a defesa nacional. De acordo com “X”:


“Ford dobrou os salários que pagou e ganhou mais dinheiro do que qualquer outro fabricante. A razão é que um salário mínimo mais elevado que permitiu à mulher ter muitos filhos, dependendo só do salário do marido, foi psicologicamente bom para o aumento da produtividade nas suas fábricas de automóveis, além de que permitiu aos próprios trabalhadores comprar-lhe os seus carros. Desse modo ele reconheceu que numa sociedade deve haver uma mais justa distribuição da riqueza, coisa que o seu admirador, Steve Jobs, não pode fazer.


A produção em série e a produtividade de Henry foi a maravilha que fez os Estados Unidos ganharem a Segunda Guerra Mundial. A Amazon não contribui em nada para a defesa nacional, sendo apenas um serviço de marketing na Internet baseado em programas de computador, nem o Google que simplesmente organiza e fornece melhor os dados. Nada disso constrói um míssil ou um submarino melhor, exceto de modo marginal. ”


É o Pentágono, estúpido


Pois sim; tudo isto tem a ver com a reorganização do poder militar dos EUA. “X” fez questão de se referir a um relatório do CNAS (Centro para uma Nova Segurança Americana), que citei na minha coluna inicial:


“É muito importante o que se depreende do relatório. E é por isso que estamos em grande dificuldade por estarmos tecnologicamente atrás da Rússia em várias gerações de armamento, o que vem na sequência da afirmação de Brzezinski, que diz que já não somos uma potência global”.


Esta é uma análise completa e abrangente de como a Rússia conseguiu organizar as melhores forças armadas do mundo. E o relatório nem sequer leva ainda em conta o sistema de defesa de mísseis S-500, que agora está sendo ultimado e que, sem dúvida, vai fechar por completo a totalidade do espaço aéreo russo. E a próxima geração – S-600? – Será ainda mais poderosa. “X” aventura-se mesmo no território tabu do Deep State, referindo a forma como a Rússia, ao longo da última década, conseguiu posicionar-se muito à frente dos EUA, “eclipsando-o como o poder militar mais forte”. Mas a vantagem deles no jogo deve estar perto do fim – seja isso desejo auto- realizável ou seja lá o que for:


“Esperamos que o Secretário de Defesa James Mattis entenda isso e que o Secretário Adjunto de Defesa tenha as competências técnicas, a capacidade organizacional e de previsão para entender que as armas da III Guerra Mundial são mísseis ofensivos e defensivos, e submarinos, e não poder aéreo, tanques e porta-aviões. ”


Um realista, “X” admite que o status quo neoconservador / neoliberal – representado pela maioria das fações do Deep State dos EUA – nunca abandonará a postura padrão de hostilidade incessante em relação à Rússia. Mas ele prefere concentrar-se na mudança:


“Deixe Tillerson reorganizar o Departamento de Estado de acordo com a eficiência da Exxon. Ele pode ser válido nessa tarefa. Ele e Mattis podem parecer falhos de coragem mas se você disser a verdade ao Senado você nunca vai poder ser confirmado. Por isso, o que eles lá dizem não significa nada. Mas veja o que se passou no caso da Líbia. A CIA tinha um objetivo de empurrar a China para fora da África e por isso criou o AFRICOM (Comando dos EUA para a África). Esse foi um dos segredos da nossa intervenção na Líbia.”


Não que tal tenha tido sucesso; A NATO / AFRICOM transformou a Líbia num terreno baldio dirigido por milícias, e a China ainda não foi afastada do resto da África.


“X” também admite: “A Síria e o Irão são linhas vermelhas para a Rússia. Assim como o é o leste da Ucrânia a partir do Dnieper. ”


Está também plenamente consciente de que Moscovo não permitirá qualquer ameaça de mudança de regime em Teerão. E está também ciente de que “os investimentos da China no petróleo e no gás iraniano implicam que a China também não permitirá o derrube por Washington do governo iraniano”.


As coisas vão tornar-se complicadas no que toca à NATO; “X” está convencido de que a Rússia: “invadirá a Roménia e a Polónia se os mísseis não forem retirados da Roménia e se o compromisso de aceitação de mísseis pela Polónia não for rescindido. A questão não são os mísseis defensivos não perigosos dos Estados Unidos, mas a possibilidade de os substituir por mísseis nucleares ofensivos nesses silos. A Rússia não tolerará esse risco. Esses mísseis não estarão sujeitos qualquer negociação. ”


Em contraste com a “perpétua ameaça”, contínua propaganda do Partido da Guerra dos Estados Unidos, Moscovo dá é atenção aos factos reais que ocorrem no terreno desde a década de 1990; a rutura do histórico aliado eslavo, a Sérvia; a anexação pela NATO das nações do Pacto de Varsóvia e até mesmo de ex-repúblicas da URSS, para não mencionar as tentativas de incluir também a Geórgia e a Ucrânia; o apoio e a organização, pelos EUA, de revoluções coloridas; o fiasco “Assad deve ir”, na tentativa de mudança forçada do regime da Síria, incluindo inclusive o armamento de Salafi-jihadis; as sanções económicas, a guerra de preços do petróleo e os ataques ao rublo; o continuado assédio da NATO. “X”, plenamente consciente destes factos, acrescenta:


“A Rússia sempre quis a paz. Mas eles não vão jogar um jogo com os Mestres do Universo que apresentam Trump como o tipo bom e o Congresso, CIA, etc., como o tipo mau, usando tal cenário como um estratagema de negociação. É assim que eles veem a situação. Eles não acham que este circo seja real. ”


O circo pode ser apenas uma ilusão. Ou uma wayang – uma espécie de teatro de fantoches indonésio – como eu já sugeri. “X” avança uma interpretação nítida deste jogo de sombras do ponto de vista de Moscovo, admitindo que “vão ser necessários vários meses para ver se Putin pode aceitar negociar um desanuviamento com Trump que essencialmente passará por uma Ucrânia oriental autónoma, um tratado de paz na Síria com Assad no lugar, e uma retirada das forças da NATO, regressando esta à linha de defesa que existia no tempo de Ronald Reagan. ”



Quem prevalecerá; Os Mestres, ou o Deep State? Prepare-se para a colisão.


Pepe Escobar


Artigo em inglês aqui :





Tradução : Júlio Gomes (Docente na Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, Portugal, atualmente reformado.) para Global Research.

A Associação Revolucionária das Mulheres do Afeganistão (RAWA) sobre Crimes de Guerra dos EUA no Afeganistão

Afghanistan





































A Associação Revolucionária das Mulheres do Afeganistão (RAWA, na sigla em inglês), organização clandestina e independente de mulheres afegãs que atuam no anonimato em favor dos direitos humanos, especialmente feministas, luta contra quatro inimigos em solo afegão: os senhores da guerra da Aliança do Norte colocada no poder pelos Estados Unidos em 2001, a ocupação norte-americana, o Taliban, e o Estado Islamita recém-surgido.










































































A representante da RAWA, que se identifica como Friba, concedeu esta entrevista sobre a situação de seu país há 15 anos de ocupação dos Estados Unidos sob promessa de promover liberdade, igualdade e justiça. A voz de Friba, que representa a dos mais de 30 mil afegãos inocentes assassinados e mais de 100 mil feridos por atos de terror e crimes de guerra desde outubro de 2001, enfrenta sérios riscos em um país historicamente estratégico para as grandes potências, e dos mais efervescentes do planeta hoje.


A militante afegã traz à luz fatos ocultados pela mídia predominante que explicam a atual conjuntura global, especialmente as causas do terrorismo e as reais intenções do Império agonizante em promover guerras, e perpetuar ocupações militares. “Os Estados Unidos não se interessam pela prosperidade do Afeganistão. Instabilidade, insegurança, pobreza, analfabetismo e outros problemas sociais e econômicos profundamente enraizados, ajudam os Estados Unidos e seu governo fantoche a permanecer no poder”, afirma a entrevistada, direto de Cabul.


“Os Estados Unidos cometeram crimes hediondos no Afeganistão na década passada, matando milhares de pessoas inocentes em ataques aéreos e incursões noturnas, e torturando afegãos inocentes em seus locais negros dentro de suas bases”, afirma a pacifista ao comentar a “Guerra ao Terror” que, apenas nos primeiros meses, matou muito mais inocentes que nos ataques em solo norte-americano há 15 anos, que apenas tem gerado mais radicalismo e violência no Oriente Médio, e em todo o mundo.


A seguir, a situação afegã vivida por dentro segundo a combativa líder da RAWA, uma das tantas heroínas anônimas de um dos países mais pobres e oprimidos pela propalada Operação Liberdade Duradoura dos Estados Unidos e da OTAN, formulada nos porões do poder global para levar caos e servir como pretexto para uma guerra sem fim.



Edu Montesanti: Por favor, fale sobre a RAWA e as dificuldades que seu país enfrenta hoje.

Friba: A Associação Revolucionária das Mulheres do Afeganistão é a mais antiga organização das mulheres no Afeganistão, a qual luta por liberdade, democracia, justiça social e secularismo.


A fundadora da RAWA foi Meena, quem formou este grupo ainda jovem, em 1977, com a ajuda de algumas outras estudantes universitárias em Cabul. Meena foi assassinada em Quetta, Paquistão em 1987 por agentes do KHAD (sucursal afegã da KGB), com a ajuda do grupo fundamentalista sanguinário de Gulbuddin Hekmatyar. Ela tinha apenas 30 anos de idade.


O que distingue a RAWA de outras associações é o fato de que somos uma organização política. Quando a RAWA foi fundada, o Afeganistão estava sob a opressão do governo fantoche da União Soviética e, posteriormente, da invasão russa, e Meena percebeu que a luta por independência, liberdade e justiça era inseparável da luta pelos direitos das mulheres.


Depois do martírio de Meena, a RAWA deu seguimento à luta contra os fundamentalistas islamitas afegãos e seus apoiadores internacionais, o que faz até hoje. A RAWA ainda atua na clandestinidade na maior parte do Afeganistão, e enfrenta enormes dificuldades.


Os líderes jihadistas, senhores da guerra com passados sangrentos de crimes horríveis, estão no controle do atual governo e do parlamento, e tem seus domínios separados em diferentes partes do Afeganistão. Abdullah Abdullah, o chefe de Estado do Afeganistão, é um desses líderes jihadistas que pertence ao grupo criminoso de Shorae Nizar.


Isso cria uma situação perigosa para nós já que esses bandidos, nossos maiores inimigos, não param de dificultar nosso trabalho e nos prejudicar. Em outras partes do Afeganistão, onde os fundamentalistas talibans estão no controle, a RAWA enfrenta a mesma opressão. Todas as nossas ativistas usam pseudônimos por precaução, e nunca podemos aparecer em público com nosso trabalho.


Apesar destes obstáculos, ainda é possível continuarmos as atividades políticas na maior parte do país devido ao nosso contato com os habitantes locais, e ao fato de que o ódio destes contra aqueles criminosos traduz-se em apoio a nós.


Nossas atividades políticas incluem a publicação de revistas e artigos, a mobilização de mulheres para que adquiram esta consciência e, assim, juntem-se à nossa luta. Coletamos e documentamos assassinatos, estupros, roubos, extorsões e outros crimes desses senhores da guerra, nas partes mais remotas do Afeganistão.


Nossas atividades sociais são proporcionar educação às mulheres – e não apenas as aulas de alfabetização, mas também a consciência social e política quanto aos seus direitos e como alcançá-los -, ajuda emergencial, criação de orfanatos e atividades relacionadas à saúde.


Edu Montesanti: Como está o Afeganistão hoje, 15 anos após a invasão norte-americana?


Friba: Os Estados Unidos cometeram crimes hediondos no Afeganistão na década passada, matando milhares de pessoas inocentes em ataques aéreos e incursões noturnas, e torturando os afegãos inocentes em suas prisões secretas dentro de suas bases militares.


O massacre de Bala Baluk na província de Farah em 2009, que matou 147 afegãos inocentes, o massacre de Panjwai na província de Kandahar em 2012, que matou 16 afegãos inocentes, a matança de doze crianças inocentes na província de Kunar em 2013, e o ataque ao hospital de Médicos sem Fronteiras em 2015, na província de Kunduz, que matou 42 e feriu mais de 30 pessoas, são apenas alguns casos envolvendo derramamento de sangue causados por forças dos Estados Unidos e da OTAN no Afeganistão.


Apesar disso, a maior traição dos Estados Unidos ao Afeganistão é a reedição de criminosos fundamentalistas islamitas no poder. Como a história tem mostrado sempre e o presente prova, nenhuma intervenção ou ocupação estrangeira é inteiramente bem-sucedida sem a cooperação de um grupo de traiçoeiros internos, mercenários do país ocupante.


Hoje, o Afeganistão é governado por senhores da guerra fundamentalistas sanguinários e criminosos que compactuam com a ideologia do Taliban, e que cometeram crimes piores do que os do Taliban no passado. A Aliança do Norte, composta pelos elementos mais traiçoeiros e misóginos dos senhores da guerra e comandantes militares, foi imposta ao nosso povo através de três eleições historicamente fraudulentas.


Esses criminosos provocaram a guerra civil de 1992 a 1996 que matou mais de 65 mil civis em Cabul, e saquearam a cidade. Suas milícias cometeram assassinatos sistemáticos, estupros, estupros coletivos, extorsões, roubos, detenções arbitrárias, cortaram os seios das mulheres, cravaram pregos em crânios, realizaram rituais de matança horrível e centenas de outros crimes. Em vez de enfrentar a acusação nos tribunais internacionais por tais crimes, esses assassinos desfrutam da mais absoluta impunidade e engordam suas contas bancárias, com o apoio do Ocidente.


Inúmeros relatórios de organismos internacionais como a Human Rights Watch e a Anistia Internacional documentaram os crimes cometidos pelos poderosos senhores da guerra em todo o Afeganistão, tanto no passado quanto no presente. Apesar disso, sabemos que este apoio é inabalável e continuará por décadas.


O novo governo do Afeganistão, denominado “Governo de Unidade Nacional”, é dirigido pelos mercenários de longa-data dos Estados Unidos, Ashraf Ghani e Abdullah Abdullah, ambos da Aliança do Norte que estavam unidos em um acordo quebrado por John Kerry, após os dois não terem concordado com os resultados das fraudulentas e repugnantes eleições presidenciais, repleta de sujeira; o resultado daquelas eleições foi oficialmente lançado um ano depois!


O vice de Ashraf Ghani é Rashid Dostum e outro foi Sarwar Danish, famosos criminosos enquanto os companheiros de chapa de Abdullah foram Mohammad Khan e Mohammad Mohaqiq, outros dois criminosos bem conhecidos. A primeira medida do novo governo foi assinar o Acordo de Segurança Bilateral, que legitima a presença a longo prazo dos Estados Unidos em nossa pátria, e foi o documento que oficialmente vendeu nossa independência aos Estados Unidos.


Não há nenhuma cara nova no governo. A única diferença é que, desta vez, os famosos criminosos das facções Khalq e Parcham, que eram marionetes da União Soviética, também têm recebido uma parte do poder apesar de terem sido incriminados em uma Lista da Morte que revelou os nomes de cinco mil ativistas políticos e intelectuais, mortos pelo regime nas décadas de 1970 e de 1980.


É desnecessário dizer que tal regime fantoche não pode trazer paz, liberdade, democracia, justiça e os direitos das mulheres, mesmo que se submeta a eleições cem vezes.


Segundo a ONU, o alcance do Taliban hoje é o mais amplo desde 2001. Os ataques suicidas do Taliban e a guerra constante entre o governo afegão e Taliban, fizeram um inferno na vida do nosso povo. A taxa de mortalidade civil em 2015 foi a maior já registrada, sendo que grande parte das vítimas era composta de mulheres e crianças.


Enquanto as feridas que o Taliban causou ao nosso povo ainda estão sangrando, as negociações de paz estão em andamento para incluir o Taliban no governo. Em vez de colocá-los em julgamento pelos crimes hediondos, estão sendo convidados para o governo com o objetivo de completar o círculo de fundamentalistas criminosos e mercenários no Afeganistão. Como pode uma força tão criminosa trazer paz ao tomar o poder?


Hoje, a economia do Afeganistão está em frangalhos. Mais de 60 bilhões de dólares foram doados ao Afeganistão para o propalado esforço de reconstrução, mas nem sequer alguns centavos chegaram ao nosso povo enquanto encheram os bolsos da máfia, dentro e fora do governo. Nos últimos treze anos nenhum projeto contribuiu para a reconstrução da base do país. Nenhuma infra-estrutura básica foi construída no país, e o desemprego atinge novos picos a cada dia.


A pobreza e a fome no Afeganistão estão entre as mais altas do mundo, apenas comparável às nações africanas. O Afeganistão tem a maior taxa de mortalidade infantil do mundo, milhões de pessoas sofrem de fome e desnutrição. 25% das crianças no Afeganistão trabalham para alimentar suas famílias, o que as impede de frequentar a escola e de ter acesso a outros direitos básicos.


O Afeganistão foi considerado o país mais corrupto do mundo nos últimos anos. Graças à invasão norte-americana, o Afeganistão é hoje um narco-Estado. Não é apenas o maior produtor de drogas fornecendo 90% do ópio mundial, mas também tem o maior índice [proporcional, grifo nosso] de usuários de drogas, com cerca de três milhões de viciados. Na recente entrevista coletiva de Londres, Ashraf Ghani afirmou que do lucro de 500 bilhões de dólares de drogas no Afeganistão, 480 bilhões fluíram para a Europa.


Isto não apenas revela o fracasso do Ocidente em sua chamada guerra contra as drogas no Afeganistão, como também suscita dúvidas em relação ao seu envolvimento neste negócio.


Edu Montesanti: Anos atrás, a escritora, ativista pelos direitos humanos e ex-parlamentar expulsa injustamente do cargo, Malalaï Joya, denunciou que a CIA segue coordenando o tráfico de drogas a partir do Afeganistão. Em uma entrevista por correio eletrônico (censurada) ao jornal brasileiro O Tempo, mais tarde enviada para mim na íntegra também por correio eletrônico, ela afirmou que “a economia de narcóticos do Afeganistão é um projeto traçado pela CIA, apoiada pela política externa dos Estados Unidos. Há relatos no Afeganistão de que até mesmo o Exército norte-americano está envolvido no tráfico de drogas. A máfia da droga faz parte dos porões do poder, apoiada pelo Ocidente”. O que você pode dizer sobre isso?


Friba: Nós apoiamos fortemente esta declaração de Malalaï Joya, baseada em fatos.


A CIA tem uma longa história de envolvimento no comércio global de drogas em todas as partes do mundo, sob controle dos Estados Unidos ou onde Washington exerce considerável influência. Alguns poucos casos foram investigados e expostos por jornalistas, mas a questão permanece encoberta.


A história da CIA começou na década de 1980. As drogas foram vistas como a maneira mais rápida e mais fácil de se obter dinheiro para financiar representantes da CIA e as forças paramilitares que os serviam, em diferentes países. Gary Webb, o corajoso jornalista que expôs o escândalo do tráfico de drogas dos Contra da Nicarágua, e que acabou sendo levado ao suicídio por uma extensa campanha de difamação pela grande mídia, descreveu o processo desta maneira:


“Nós [CIA] precisamos de dinheiro para uma operação secreta, e a maneira mais rápida para aumentá-lo é vendendo cocaína; vocês a venderão em algum lugar, não queremos saber nada sobre isso.”


Essa tática funcionou com muito sucesso no Afeganistão durante a Guerra Fria, quando as forças mujahideen que servem os EUA foram financiadas através das drogas.


Antes da invasão dos Estados Unidos em 2001, os campos de plantação de papoula foram erradicadas pelos talibans. Logo após a invasão dos Estados Unidos, a produção de drogas começou a aumentar drasticamente, e hoje o Afeganistão produz 90% do ópio do mundo, à beira de se tornar um narco-Estado. Há relatos de que as forças norte-americanas admitem que as drogas são transportadas a partir do Afeganistão em aviões norte-americanos.


Ahmed Wali Karzai, irmão do fantoche dos EUA, Hamid Karzai, ex-governador hoje morto na província de Kandahar, foi ao mesmo tempo o maior traficante não apenas do Afeganistão, mas da região. O tempo todo, ele esteva na folha de pagamento da CIA.


Houve, até mesmo, alegações por parte de oficiais norte-americanos diretamente envolvidos nas operações de drogas no Afeganistão sobre o envolvimento da CIA. Um agente da DEA [Drug Enforcement Administration, agência de fachada dos Estados Unidos, teoricamente anti-narcóticos que funciona como órgão da agência de inteligência norte-americana em todo o mundo], Edwrad Follis, afirmou que a CIA “fechou os olhos” para o tráfico de drogas no Afeganistão. Mais recentemente, John Abbotsford, ex-analista da CIA e veterano de guerra que lutou no Afeganistão, confessou que a CIA desempenhava seu papel em operações de contrabando de drogas.


Mesmo se excluirmos estas reivindicações e relatórios, é difícil acreditar que uma superpotência que possui a mais moderna tecnologia em vigilância e coleta de informações, não consegue encontrar campos de ópio e nem rastrear rotas de fornecimento dentro de um país que ocupa. O fato de que 8 bilhões de dólares foram gastos em esforços de erradicação da droga durante a última década, mas a produção de ópio tem apenas subido, é por si só uma indicação de que o negócio da droga serve a algum interesse dos Estados Unidos no Afeganistão, ou que teria sido concluído há muito tempo.


Outras protagonistas desses tão chamados esforços “antinarcóticos” são empresas privadas norte-americanas que ganham milhões de dólares por meio de contratos antinarcóticos. Uma das maiores beneficiárias é a notória empresa militar Blackwater, agora conhecida como Academi que, de acordo com a [rede de notícias] Russia Today, ganhou 569 milhões de dólares através desses contratos. Empreiteiras privadas têm uma enorme parcela sobre os lucros da guerra no Afeganistão, e essa fracassada guerra às drogas proporciona enormes lucros a elas.


Na verdade, uma das razões para a invasão do Afeganistão pelos Estados Unidos é que os norte-americanos devem manter o controle sobre o negócio de narcóticos, terceiro mais importante produto de comércio em termos de rendimento, depois do negócio das armas e do petróleo.


Edu Montesanti: Qual a situação das mulheres no Afeganistão hoje, as quais os Estados Unidos prometeram libertar da forte misoginia local em 2001?


Friba: A terrível situação das mulheres afegãs sob o regime de mentalidade medieval do Taliban foi explorada pelos Estados Unidos como uma das principais razões para invadir o Afeganistão em 2001. Vejamos como esta “libertação” foi cumprida.


Como todas as pessoas do Afeganistão, as mulheres estão esmagados entre diversas forças em uma guerra contínua, e a insegurança que assola nosso país por mais de uma década: os Estados Unidos e seus aliados, os jihadistas e fundamentalistas do Taliban, e o recém-surgido ISIS [Estado Islamita].


O Parlamento tentou legalizar o apedrejamento até a morte por adultério, a surra na esposa e assassinato em nome da honra [do homem]. A maioria das mulheres em prisões afegãs hoje foram condenadas pelo Judiciário misógino por “crimes morais”, tais como fugir de casa de maridos e de sogros crueis, fugir com amante, etc.


Inúmeros casos de amarração pública e execuções foram realizados pelos tribunais simulados de talibans, senhores da guerra locais e mulás em todas as partes do Afeganistão.


A situação das mulheres hoje é catastrófica. A violência contra as mulheres subiu a níveis sem precedentes hoje. As mulheres sofrem de violência doméstica, estupro, estupro coletivo, abuso sexual, homicídio, imolação, o assassinato honroso, casamentos forçados a menores de idade com homens muito mais velhos que elas, troca de meninas no casamento por mercadorias, e dezenas de outras desgraças semelhantes. As meninas têm sido torturadas nos porões, têm tido narizes, lábios e orelhas decepados, têm sido privadas de comida e espancadas até a morte, pelas famílias ou pelos sogros. O que ficamos sabendo através da mídia é apenas a ponta do iceberg.


Em 2001, os Estados Unidos e seus aliados usaram a situação das mulheres afegãs como pretexto para ocupar o Afeganistão; eles usaram especialmente a imagem de uma mulher afegã chamada Zarmina, assassinada publicamente pelo Taliban no estádio esportivo de Cabul. Contudo, apenas algumas semanas atrás uma mulher afegã foi executada publicamente de maneira semelhante, e os meios de comunicação ocidentais fecharam os olhos diante disso, e ainda não relataram o fato.


As taxas de auto-imolação atingiram novos picos. Muitas mulheres queimam-se vivas ao não enxergar outra solução aos seus problemas. Os legisladores, magistrados e policiais em todo o Afeganistão são fundamentalistas misóginos que impõem suas mentalidades anti-feministas em forma de leis, e oferecem impunidade total aos autores desses horrendos crimes. É natural que, em tal situação, a violência contra as mulheres apenas vai continuar subindo.


No ano passado, o Afeganistão testemunhou o crime mais horrível já cometido contra uma mulher afegã em plena luz do dia, no centro de Cabul, debaixo o nariz dos policiais locais e do governo. Farkhunda, estudante de 26 anos de idade, foi linchada por uma multidão de bandidos que, falsamente, acusaram-na de ter queimado o Alcorão. Ela levou chutes, socos, foi atropelada por um carro, apedrejada e, em seguida, queimada e jogada no seco rio de Cabul. A maioria dos assassinos de Farkhunda foram liberados dias após a detenção. Dos quatro detidos, um foi condenado a apenas dez anos de prisão, e os outros três a 20 anos. Suas penas de morte foram revogadas em sessões de julgamento ridiculamente curtas.


Mais tarde, ainda no ano passado, Rukhshana de 19 anos foi apedrejada até a morte por um tribunal desonesto do Taliban em uma província ocidental do Afeganistão dominada por mulás, por ter fugido. Seus gritos ecoaram por todo o país enquanto ela era lentamente assassinada por uma multidão enfurecida de talibans. Uma delegação foi enviada por Ashraf Ghani, presidente afegão, para investigar e punir os autores dos crimes. A delegação foi chefiada por um mulá, que apoiou o Taliban e defendeu abertamente o apedrejamento da jovem como sendo islamita e juridicamente legal, alguns dias após o incidente. A investigação foi, sem surpresa, inútil.


Talvez o reflexo mais claro da mentalidade da atual legislatura partiu de Nazir Ahmad Hanafi, proeminente legislador afegão cuja acalorada entrevista com Isobel Yeung culminou com uma evidente ameaça: “Talvez eu devesse entregar-lhe a um afegão para que decepasse seu nariz”, em referência à mutilação de uma jovem de 20 anos, Reza Gul, que teve o nariz mutilado pelo esposo pelo “crime moral” de ter fugido de casa.


O Afeganistão ainda tem uma das mais altas taxas de mortalidade materna do mundo, com milhares de mulheres morrendo durante o parto a cada ano. A taxa de alfabetização oficial está em 18%, ainda que considerando a realidade do território nacional a taxa seja muito menor que essa. O Afeganistão é, com razão, chamado de um dos piores lugares para ser mulher.


Os Estados Unidos têm feito uma piada em nome da democracia e com os direitos das mulheres em nosso país, apoiando os criminosos mais misóginos do governo, e descaradamente usando a presença simbólica de funcionárias governamentais, do sexo feminino, para enganar o mundo sobre a situação real. A maioria dessas mulheres estão vinculadas aos mesmos partidos fundamentalistas e criminosos, e são tão antidemocráticas e misóginas quanto seus homólogos masculinos. Os outros estão, simplesmente, usando esta oportunidade para engordar suas contas bancárias com a corrida do ouro da ajuda externa.


As outras realizações das mulheres, tais como reabertura de escolas e de postos de trabalho para mulheres, são limitadas a algumas cidades urbanas do Afeganistão com a maioria das mulheres ainda sofrendo com o atual fogo do Inferno.


Neste momento, o governo fantoche afegão está negociando com Gulbuddin; quer tirar seu nome da lista negra da ONU, dar-lhe proteção jurídica e impunidade. Mas este é o mais notório senhor da guerra afegão, e maior inimigo dos direitos das mulheres que costumava jogar ácido no rosto de mulheres, publicamente.


Os Estados Unidos usam esses “ganhos” superficiais como pretexto para darem seguimento à ocupação militar no Afeganistão, ameaçando que eles serão perdidos após sua chamada retirada. É uma verdade fundamental que os ganhos hard-lutou feitas pela verdadeira luta das mulheres nunca são perdidas, e os EUA usa essas mudanças cosméticas como uma cortina de fumaça para justificar a sua invasão ao povo do mundo.


Edu Montesanti: Como o povo afegão, em geral, vê a longa ocupação dos Estados Unidos?


Friba: Os afegãos estão fartos, sabem que o Ocidente os traiu, que vieram com longas alegações de “direitos humanos”, “direitos das mulheres” e “democracia”, mas na verdade eles empurraram o Afeganistão no sentido de desastres e de um Estado mafioso, e tudo o que fizeram foram apenas mudanças cosméticas.


Eles estão fartos dos crimes e brutalidade das forças dos Estados Unidos no Afeganistão ao longo dos últimos 15 anos, porque dezenas de milhares de afegãos foram mortos por suas bombas e tiroteios, e na verdade o terrorismo foi ainda mais alimentado que antes.


Eles estão fartos com o fato de que o Ocidente está contando com as bandas mais brutais e desumanas, e em nome da “Guerra ao Terror”, na verdade, apoia terroristas e usa o terrorismo como uma arma para derrotar seus rivais como Rússia e China.


Edu Montesanti: Quanto os Estados Unidos são sinceros em libertar o Afeganistão? Você acha que os Estados Unidos desejam um Afeganistão instável?


Friba: O clamor dos Estados Unidos e da OTAN de “libertar” o Afeganistão é apenas slogan barato, e na verdade eles são invasores e destruidores da “libertação”. Os Estados Unidos não têm interesse na prosperidade do Afeganistão. Na verdade, a instabilidade, a insegurança, a pobreza, o analfabetismo e outros problemas sociais e econômicos profundamente arraigados ajudam os Estados Unidos e seu governo fantoche a permanecer no poder, sem nenhuma oposição do povo.


Na verdade, o governo dos Estados Unidos tem as mãos sujas de sangue diante dos acontecimentos das últimas quatro décadas no Afeganistão. Eles apoiaram elementos armados, sedentos de sangue em nosso país, e levaram o Afeganistão a essa atual condição desastrosa. Se os Estados Unidos quisessem estabilidade e prosperidade, teriam dado os bilhões de dólares de ajuda para investimentos em infra-estrutura básica e não para encher os bolsos dos senhores da guerra e ONGs corruptas, que prosperaram sob a ocupação norte-americana. Esta corrida do ouro levou o Afeganistão a se tornar o país mais corrupto do mundo.


Os Estados Unidos e a OTAN tentam transformar não só o Afeganistão, mas toda a Ásia em uma região instável. Enquanto a economia mundial se volta para a Ásia com grandes potências, como Rússia, China, Índia, etc, os Estados Unidos contam com o terrorismo como arma para bloquear o progresso especialmente de Rússia e China, e causam problemas para estes países.


O Afeganistão tornou-se centro deste jogo de poder entre as grandes potências, mais uma vez. Igualmente, temos relatos de que a Rússia também arma o Taliban e os senhores da guerra no Afeganistão, para combater o plano dos Estados Unidos de exportar o terrorismo para repúblicas da Ásia Central e à própria Rússia. Neste jogo, em que ambos os lados usam o terrorismo como arma, os afegãos estão enfrentando um banho de sangue e as coisas estão progredindo rapidamente em direção a novas guerras, e mais derramamento de sangue.


Edu Montesanti: E por que, exatamente, os Estados Unidos estão tão interessados no Afeganistão, a seu ver?


Friba: Neste ponto, depois de mais de uma década de agressão dos Estados Unidos em vários países da região, achamos que não resta nenhuma dúvida na mente de ninguém de que os Estados Unidos estão presentes em nosso país, e em outros países, por seus próprios interesses.


A posição geopolítica do Afeganistão oferece aos Estados Unidos vantagem única na região: acesso aos seus maiores rivais em todo o mundo, Rússia, China, Índia e Irã. Os Estados Unidos construíram [no Afeganistão] bases militares gigantescas e sua segunda maior Embaixada no mundo, e tem milhares de militares e empreiteiros privados estacionados em diferentes partes do Afeganistão.


Essas bases militares oferecem pontos à tentativa dos Estados Unidos de manter seus adversários sob seus domínios, e de continuar perseguindo seus principais objetivos na região. Além disso, e talvez mais importante, o governo traiçoeiro e fundamentalista do Afeganistão, junto de uma população desgastada com a guerra que tem sido executada por quatro décadas, muito cansada de lutar novamente, proporciona as condições ideais para as operações dos Estados Unidos aqui.


Os traidores do Estado afegão não apenas venderam o Afeganistão, mas têm mantido silêncio sobre os crimes brutais das forças dos Estados Unidos, e defendido todos os seus atos de agressão no país.


Os afegãos sabem agora que os Estados Unidos, simplesmente, usam o Afeganistão como frente na Ásia para avançar sua agenda regional, que é promover terrorismo para transformar a Ásia em ponto efervescente na terra com o intuito de deter o avanço das emergentes potências militares e econômicas no continente.


Se você acompanhar cada mudança significativa na situação do Afeganistão – como a transferência do Taliban e da guerra, a insegurança, o terror e a agitação que automaticamente vem em seguida – para as regiões do norte, tudo isso eles serve a um certo interesse de os Estados Unidos. Neste caso, estaria gerando instabilidade nas proximidades da Rússia, e até mesmo a instigando.


É importante salientar aqui que, ao contrário do geralmente propagado sobre os talibans como lacaios do Paquistão e, em menor medida, do Irã, a verdade é que em última análise são os Estados Unidos quem estão segurando a coleira desses indivíduos violentos.


Os talibans são a força de reserva dos Estados Unidos, que irão utilizá-los sempre que virem necessidade para isso. Não é segredo que o regime sanguinário taliban foi criado e alimentado pelos Estados Unidos, e será usado sempre que for necessário.


O Taliban serve a um duplo propósito para os Estados Unidos hoje: eles justificam a continuação da “Guerra ao terror”, e serve como seus procuradores em partes do Afeganistão que não estão sob o controle do propalado governo [nacional].


Hoje, nada no Afeganistão pode ocorrer ou ser alterado sem autorização do Estados Unidos, e seria muito ingênuo pensar de outra forma. Esta situação também expõe a mentira que o governo dos Estados Unidos disse ao mundo em 2014 sobre o término de sua guerra no Afeganistão, retirando as tropas e acabando com a guerra no Afeganistão. Os Estados Unidos continuam tendo uma forte presença no Afeganistão para fins geoestratégicos.


Edu Montesanti: Se eu bem compreendi, Friba, você quer dizer que o Afeganistão está pior agora que antes da invasão liderada pelos Estados Unidos.


Friba: Sim, absolutamente. Para além do que mencionei anteriormente, se considerarmos apenas a deterioração da situação de segurança, vital às pessoas mais que comida e água, podemos entender o quanto a situação está pior do que antes em todo o Afeganistão.


O ópio é outro vírus mortal que infecta nossa nova geração, e é ainda mais perigoso do Taliban e da Al-Qaeda. O número de civis mortos em ataques suicidas por talibans, os ataques noturnos e os ataques aéreos das forças dos Estados Unidos, e os crimes das milícias dos senhores da guerra locais em diferentes partes do Afeganistão aumentam a cada ano.


A economia do país está em ruínas, controlada pela máfia que traça o apoio de poderosos funcionários do governo afegão. Os Estados Unidos e a OTAN invadiram o Afeganistão com importantes alegações de “reconstrução do Afeganistão”, mas não vemos nenhum crescimento em nenhum setor fundamental do Afeganistão.


Apenas a máfia e as ONGs têm crescido em número e tamanho. Os afegãos são o segundo maior grupo de migrantes do mundo, enquanto os jovens se engajam em viagens perigosas a fim de escapar da miséria em suas casas. Muitos jovens hoje são viciados em drogas.


Nas áreas mais isoladas, a pobreza e o desemprego têm levado os jovens a se juntar ao Taliban e ao ISIS [Estado Islamita] já que estes fornecem necessidades básicas, e às vezes até pagam salários. As mulheres afegãs são tão reprimidas e estão sob constante ataque quanto estavam sob a regra medieval do Taliban.


Governos vizinhos como Irã e Paquistão nunca tiveram mãos tão manchadas de sangue diante dos assuntos do Afeganistão, como atualmente.


Este é apenas um breve resumo da situação desastrosa do país, mas é o suficiente para mostrar a devastação que os EUA trouxe sobre o nosso país e as pessoas.


Edu Montesanti: Como você disse, a história e os acontecimentos atuais mostram que ocupação nunca é bem-sucedida. Que alternativas a RAWA defende a fim de mudar definitivamente a catastrófica realidade do Afeganistão? Você vê ajuda externa como produtiva para efetivamente libertar o povo afegão dos personagens e dos grupos altamente violentos, mencionados por você? Se assim for, quem e como poderia ser prestada uma ajuda eficaz ao Afeganistão?


Friba: Sempre dissemos que a independência de um país é a primeira condição para democracia, liberdade e justiça. Há poucos, ou nenhum exemplo na história em que a intervenção estrangeira libertou ou ajudou uma nação, e nos últimos 14 anos da ocupação norte-americana do Afeganistão é uma prova disso.


Os Estados Unidos não apenas não libertaram o Afeganistão, mas impuseram ao nosso povo os maiores inimigos, os criminosos fundamentalistas. Os Estados Unidos são o criador e educador desses violentos grupos. É uma política consciente do governo dos Estados Unidos formar parceria com fundamentalistas islamitas onde quer que ele entra em cena. Vimos isso na Líbia e na Síria também. Os Estados Unidos afirmam estar combatendo o terror, mas os maiores terroristas, os criminosos da Aliança do Norte foram levados ao poder pelos próprios Estados Unidos. Contudo, isso não causou nenhuma surpresa. Logo no início da invasão norte-americana ao Afeganistão, a RAWA declarou que o propósito desta agressão era servir aos objetivos imperialistas dos Estados Unidos, e que naquela tragédia faria parceria com os piores inimigos do nosso país. O que menos importa aos Estados Unidos é o bem-estar do Afeganistão e do seu povo. A situação atual do nosso país, é prova disso.


A chave para a liberdade e para a democracia está em uma luta unida, organizada do nosso povo. Uma luta árdua que seja, mas não há outra maneira de sair deste atoleiro. Apenas as pessoas de um país podem decidir seu destino, e construir um sistema que lhes serve.


A solidariedade das pessoas libertárias e amantes da paz em todo o mundo é muito importante no fortalecimento da luta do nosso povo, também. Este será um processo longo e difícil, mas os afegãos não têm outra alternativa senão unir-se e lutar por liberdade, democracia, justiça e libertação.


Edu Montesanti: A RAWA defende um Afeganistão laico ou islamita, fundamentado na sharia?


Friba: Secularismo tem sido o slogan da RAWA desde sua fundação. Acreditamos que a democracia não tem sentido sem o secularismo. A religião tem sido historicamente utilizada como meio para manter o poder daqueles que governam, e em uma sociedade onde as pessoas são profundamente religiosas, a combinação entre Estado e religião é particularmente perigosa.


Hoje no Afeganistão, a maior ferramenta de fundamentalistas atuais na utilização da força para defender seus atos e se proteger, é o Islã. Todos os criminosos fundamentalistas no poder encobrem seus crimes usando o Islã. Este tem sido utilizado para anular a indignação das pessoas, e o desejo delas de se levantar e de lutar por seus direitos.


O Taliban tem sido capaz de transformar jovens inocentes em mortais atacantes suicidas, através da lavagem cerebral baseada em ideias religiosas. Infelizmente, esse mau uso da religião tem servido muito bem.


Por essa razão, o secularismo é vital ao nosso país hoje, para extirpar o fundamentalismo e construir uma sociedade livre desse vírus mortal. Só assim o Afeganistão pode dar um passo em direção ao progresso e à prosperidade.


Edu Montesanti: A misoginia é senso-comum no Afeganistão, ou reduzida aos senhores da guerra e ao Taliban?


Friba: Não há dúvida de que o Afeganistão é atormentado pelo atraso, cultural e economicamente. Durante séculos, os monarcas reacionários injetaram e utilizaram ideias reacionárias para manter-se no poder. No entanto, nas últimas três décadas, quando os fundamentalistas islamitas dominaram o Afeganistão, o atraso do país tornou-se mais comum e extremo que nunca.


Um dos aspectos do Islã amplamente propagado por radicais islâmicos, é a degradação e a opressão das mulheres, vistas mais como animais que como seres humanos. As mulheres vivem apenas para serem vistas como servas que trabalham em casa, dar à luz a filhos e satisfazer as necessidades sexuais dos homens.


A violência familiar é um dos mais desgastantes e dolorosos problemas das mulheres no Afeganistão, assim como na maioria dos outros países muçulmanos, e é principalmente apoiada pelos governos de linha dura. Este problema, em parte alimentado com os ensinamentos islamitas que são dados aos homens… e mulheres desde a infância.


Há versos do Alcorão a este respeito, que dizem que:


“Suas mulheres são uma lavoura para você (cultivar); assim, vá à sua lavoura como quiser” (2: 223)


“Os homens estão a cargo das mulheres… Quanto àquelas a quem vocês temem rebelião, as admoestem e as isolem em camas separadas” (04:34)


Há um monte de versos deste tipo no Alcorão. Homens justifica sua superioridade e o tratamento desumano e relação às mulheres com base e, tais versos. E, é claro, em uma série de declarações do profeta Maomé ou de outras fontes religiosas, e sobre uma grande quantidade de poemas e histórias; aliás, poetas populares reforçam estes versos e, todos juntos, afetam homens de maneira tão maléfica que se eles tratam as mulheres com ligeira humanidade e bondade, sentem-se como se estivessem cometendo o maior pecado de suas vidas! Nos livros e fontes mencionadas, existem algumas palavras de compaixão e bondade para com as mulheres, mas fracassaram em proteger as mulheres do sofrimento contra elas.


Nos países muçulmanos onde os princípios seculares têm encontrado algum espaço dentro da sociedade, a profundidade desta violência não é tão ruim quanto naqueles infestados pelo fundamentalismo.


Edu Montesanti: As ativistas da RAWA acreditam no Alcorão? Qual a religião das mulheres da RAWA?


Friba: Acreditamos que a religião é um assunto completamente pessoal, e que não importa para nós se alguém na RAWA é religiosa ou não. O que é importante para nós é que elas sejam livres do aspecto reacionário da religião que impede qualquer luta, especialmente a luta revolucionária.


Os versos mencionados são amplamente utilizados por clérigos fundamentalistas para justificar seu tratamento desumano contra as mulheres, e para encorajar este tratamento entre as pessoas. Enquanto nossa luta não tem como objetivo a própria religião, em vez daqueles elementos que abusam de religião, esses versos têm de ser mencionados como eles são os mais comumente usados.


Nós acreditamos em secularismo, o qual simplesmente separa Estado e religião e que tem o maior respeito por quaisquer crenças pessoais, de qualquer um. Toda a nação do Afeganistão, salvo uma minoria muito pequena, é muçulmana, mas ela seguem apenas as boas ações estabelecidas pelo Islã e nunca o usa para justificar maus tratos contra mulheres, contra os não-muçulmanos, etc. Esta versão do Islã é respeitada por nós, mesmo que não seja aceita como parte de nossas crenças.


Sua página sobre cultura afegã parece ótima [Cultura & Arte Afegã, em www.edumontesanti.skyrock.com]. No entanto, existem algumas práticas culturais importantes do Afeganistão que são completamente ignoradas. O evento que você descreveu, o Eid, é uma celebração religiosa. Os fundamentalistas afegãos acabaram propagando o Eid como a celebração mais popular do Afeganistão devido ao seu aspecto islamita.


No entanto, isso não é verdade. Os afegãos seguem o calendário solar e comemorar seu ano novo em 20 ou 21 de março de cada ano. Isso é chamado de ‘Nowroz’ – Novo Dia. As pessoas usam roupas novas, vão a piqueniques com suas famílias e comemoram com música e dança. Eles fazem um prato de doce de sete frutas secas embebidas em calda doce, e cozinham o prato tradicional de arroz branco com espinafre. Esta tradição vem de antepassados afegãos não-islamitas, os Zardosht – ou aqueles que adoravam o fogo. É o acontecimento mais amplamente comemorado no Afeganistão.


Mesmo décadas de guerra e de dominação fundamentalista não foram capazes de apagar essa tradição. Por favor, dê uma olhada nisto: Why Afghanistan’s Nowruz has been interrupted. Este acontecimento é particularmente importante, uma vez que remete aos nossos primeiros ancestrais quando o Islã não era nem nascido ainda. Mais importante, apesar da propaganda generalizada e dos esforços por parte do clérigo, tanto do Taliban quanto do governo, as pessoas comemoraram amplamente o evento deste ano, e continuarão a fazê-lo.


Edu Montesanti: Como vivem as ativistas da RAWA, especialmente com seus cônjuges em uma sociedade altamente misógina como esta? Como seus maridos aceitam e o quanto apoiam seus pontos de vista revolucionários?


Friba: As ativistas da RAWA são mulheres de excepcional sorte em uma sociedade devastada. Nossos maridos e outros familiares do sexo masculino são muito favoráveis, apesar de não desempenharem nenhum papel na organização, propriamente. Na verdade, temos um grupo muito grande de apoiantes do sexo masculino.


Há outros grupos revolucionários e de esquerda no Afeganistão que são predominantemente comandados por homens – ao contrário de nossa organização, somente feminina – que nos apoiam também. Nosso próprio líder, o marido de Meena, Faiz Ahmad, o líder da Organização de Libertação Afeganistão, organização de esquerda radical que existe até hoje e única organização de esquerda que sobreviveu à opressão de quatro décadas de guerra.


Faiz Ahmad foi assassinado alguns meses antes de Meena, pelo mesmo criminoso Gulbuddin Hekmatyar, quem também matou Meena. As atividades de Meena e de Faiz tinham se tornado um espinho nos olhos dos fundamentalistas islâmicos no Paquistão e da inteligência secreta do Afeganistão, por isso foram mortos.


Edu Montesanti: Como você avalia a cobertura do Afeganistão por parte da mídia predominante? Como a RAWA avalia as organizações internacionais de “direitos humanos”, e a posição da chamada comunidade internacional relativos à Questão Afegã?


Friba: Não é mais segredo que a grande mídia é utilizada como uma arma nas guerras modernas. A grande mídia mundial, em especial a dos Estados Unidos, tem servido aos propósitos imperialistas dentro de seus países melhor que qualquer outra ferramenta.


Os povos desses países não têm a verdadeira imagem das guerras dos Estados Unidos para tomar decisões adequadas e bem-informadas sobre elas. O Afeganistão raramente faz parte de alguma cobertura e quando vira notícia, é sistematicamente noticiado de acordo com a política geral dos Estados Unidos.


Os crimes das forças dos Estados Unidos tais como assassinatos, torturas e ataques noturnos nunca serão mostrados, assim como a insegurança e a instabilidade do nosso país, e da situação devastadora das mulheres e das pessoas não recebe nenhuma atenção. São mostrados os horrores dos crimes do Taliban para justificar a guerra dos Estados Unidos, ou isoladas “histórias de sucesso” para pintar um quadro cor-de-rosa da situação do Afeganistão.


Com que frequência as pessoas são incentivadas a discutir o envolvimento dos Estados Unidos em guerras pelo mundo, fornecendo-lhes fatos verdadeiros? O mesmo vale para outros países onde os crimes de ditadores como Saddam Hussein, Muammar Gaddafi e Bashar Assad são enviados continuamente, mas a completa devastação do Iraque e da Líbia pelas forças dos Estados Unidos e de seus governos fantoches, e o apoio incondicional dos Estados Unidos aos elementos do Estado Islamita (renomeado de Al-Nusra e Al-Qaeda, por exemplo) na Síria nunca são mostrados. Na verdade, eles encontram formas cobrir com cal tais ações dos Estados Unidos.


Enquanto algumas organizações internacionais de direitos humanos têm desempenhado importante papel no Afeganistão em quatro décadas de guerra documentando crimes, publicando relatórios e chamando a atenção do mundo para estas questões, o mesmo não pode se dizer em relação a toda a comunidade internacional. A comunidade internacional e seus parceiros no Afeganistão têm sido envolvidas apenas em questões superficiais que não têm nenhuma relevância ao povo afegão, tais como projetos de curto prazo e a instituição de ONGs inúteis. Eles não têm lançado luz sobre o conjunto de questões fundamentais do Afeganistão como a ocupação norte-americana, a presença de fundamentalistas no poder e seus crimes. De fato, eles dão uma mão amiga aos principais meios de comunicação do mundo para retratar a situação no Afeganistão como “melhor” do que era há 15 anos.


Mas é claro que a mídia alternativa como Democracy Now!, etc, reflete a realidade, mas suas reportagens são enterradas sob as peças de propaganda veiculadas pelos grandes meios de comunicação, tais como CNN, BBC, AP, Fox News, etc, que têm grande cobertura e recursos para fazer as pessoas de bobas.


Edu Montesanti: Quem são os maiores inimigos dos afegãos?


Friba: Os afegãos são esmagados entre quatro inimigos atualmente: as forças dos EUA e da OTAN, os criminosos e senhores da guerra da Aliança do Norte no governo, o Taliban e um Estado Islamita emergente.


Os Estados Unidos têm gerado todos esses elementos fundamentalistas criminosos, e ainda têm licença para cumprir seus propósitos na região. Isso significa que os criminosos da Aliança do Norte apreciam a maior parte do apoio ocidental, tanto financeira quanto politicamente, o que os torna mais perigoso que outros bandos. A crueldade do Taliban e do Estados Islamita é bem conhecida do mundo, e recebem apoio militar e financeiro dos Estados Unidos, do Paquistão e até mesmo do Irã.


Todos esses inimigos são poderosos e controlam diferentes partes do país. Nas batalhas entre essas forças, nos terríveis ataques aéreos, suicidas e de foguetes levados a cabo por eles, apenas nosso povo sofre.


Edu Montesanti: Quais as perspectivas da RAWA para o Afeganistão diante do atual cenário? O que você gostaria de dizer ao mundo e, em especial, para o Ocidente, para os norte-americanos e ao governo deles?


Friba: Se a situação política do Afeganistão permanece inalterada, a situação atual apenas vai se tornar mais sombria. O povo do Afeganistão continuará sofrendo com insegurança, pobreza, corrupção, desemprego e outros problemas devastadores. Nosso povo vai continuar sendo vítima dos crimes das forças dos Estados Unidos, dos senhores da guerra, do Taliban e dos jihadistas. Há apenas um caminho para a atual situação poder mudar: através das próprias pessoas que lutam por seus direitos e por um país melhor, contra seus principais inimigos, os senhores da guerra dos EUA, o Taliban, jihadistas).


Não temos nada a dizer aos governos ocidentais que têm o sangue de nossos pessoas inocentes manchados em suas mãos. Nossa mensagem às pessoas amantes da paz destes países é que eles têm que enxergar a realidade do Afeganistão, e de todos os outros países que os Estados Unidos invadiram. O que eles veem como raras notícias da situação catastrófica nesses países, é a realidade cotidiana do povo.


Eles precisam pressionar seus governos para que mudem esta política de invasões e de ocupação, e serem solidários às pessoas que são vítimas dessas guerras. Esta solidariedade internacional fortalecerá a luta pela liberdade e pela democracia nesses países.


Eles devem saber que o imposto que pagam é usado por seus governos para tornar o Afeganistão e outros países em guerra em um Inferno, que irá impactar diretamente suas vidas e tornar os países ocidentais inseguro, como o que testemunhamos hoje nas cidades europeias.